Seu
nome de origem era Antônio Gonçalves da Silva,
entretanto, devido a ser um moço muito ativo, correndo
daqui para acolá, a gente da rua o apelidara "o
batuíra", o nome que se dava à narceja, ave
pernalta, muito ligeira, de vôo rápido, que freqüentava
os charcos na várzea formada, no atual Parque D. Pedro
II, em S. Paulo, pelos transbordamentos do rio Tamanduateí.
Desde então o cognome "Batuíra" foi
incorporado ao seu nome.
Batuíra
desempenhou uma série de atividades que não cabe
registrar nesta concisa biografia, entretanto, podemos afirmar
que defendeu calorosamente a idéia da abolição
da escravatura no Brasil, quer seja abrigando escravos em sua
casa e conseguindo- lhes a carta de alforria, ou fundando um
jornalzinho a fim de colaborar na campanha encetada pelos grandes
abolicionistas Luiz Gama, José do Patrocínio,
Raul Pompéia, Paulo Ney, Antônio Bento, Rui Barbosa
e tantos outros grandes paladinos das idéias liberais.
Homem
de costumes simples, alimentando-se apenas de hortaliças,
legumes e frutas, plantava no quintal de sua casa tudo aquilo
de que necessitava para o seu sustento. Com as economias, adquiriu
os então desvalorizados terrenos do Lavapés, em
S. Paulo, edificando ali boa casa de residência e, ao
lado dela, uma rua particular com pequenas casas que alugava
a pessoas necessitadas. O tempo contribuiu para que tudo ali
se valorizasse, propiciando a Batuíra apreciáveis
recursos financeiros. A rua particular deveria ser mais tarde
a Rua Espírita, que ainda lá está.
Tomando
conhecimento das altamente consoladoras verdades do Espiritismo,
integrou-se resolutamente nessa causa, procurando pautar seus
atos nos moldes dos preceitos evangélicos. Identificou-se
de tal maneira com os postulados espíritas e evangélicos
que, ao contrário do "moço rico" da
narrativa evangélica, como que procurando dar uma demonstração
eloqüente da sua comunhão com os preceitos legados
por Jesus Cristo, desprendeu-se de tudo quanto tinha e pôs-se
a seguir as suas pegadas. Distribuiu o seu tesouro na Terra,
para entrar de posse daquele outro tesouro do Céu.
Tornou-se
um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil. Fundou o "Grupo
Espírita Verdade e Luz", onde, no dia 6 de abril
de 1890, diante de enorme assembléia, dava início
a uma série de explanações sobre "O
Evangelho Segundo o Espiritismo".
Nessa
oportunidade deixara de circular a única publicação
espírita da época, intitulada "Espiritualismo
Experimental" redigida desde setembro de 1886, por Santos
Cruz Junior. Sentindo a lacuna deixada por essa interrupção,
Batuíra adquiriu uma pequena tipografia, a que denominou
"Tipografia Espírita", iniciando a 20 de maio
de 1890, a publicação de um quinzenário
de quatro páginas com o nome "Verdade e Luz",
posteriormente transformado em revista e do qual foi o diretor-responsável
até a data de sua desencarnação. A tiragem
desse periódico era das mais elevadas, pois de 2 ou 3
mil exemplares, conseguiu chegar até 15 mil, quantidade
fabulosa naquela época, quando nem os jornais diários
ultrapassavam a casa dos 3 mil exemplares. Nessa tarefa gloriosa
e ingente Batuíra despendeu sua velhice. Era de vê-lo,
trôpego, de grandes óculos, debruçado nos
cavaletes da pequena tipografia, catando, com os dedos trêmulos,
letras no fundo dos caixotins.
Para
a manutenção dessa publicação, Batuíra
despendeu somas respeitáveis, já que as assinaturas
somavam quantia irrisória. Por volta de 1902 foi levado
a vender uma série de casas situadas na Rua Espírita
e na Rua dos Lavapés, a fim de equilibrar suas finanças.
Não
era apenas esse periódico que pesava nas finanças
de Batuíra. Espírito animado de grande bondade,
coração aberto a todas as desventuras, dividia
também com os necessitados o fruto de suas economias.
Na sua casa a caridade se manifestava em tudo: jamais o socorro
foi negado a alguém, jamais uma pessoa saiu dali sem
ser devidamente amparada, havendo mesmo muitas afirmativas de
que "um bando de aleijados vivia com ele". Quem ali
chegasse, tinha cama, mesa e um cobertor.
Certa
vez um desses homens que viviam sob o seu amparo, furtou-lhe
um relógio de ouro e corrente do mesmo metal. Houve uma
denúncia e ameaças de prisão. A esposa
de Batuíra lamentou-se, dizendo:"é o único
objeto bom que lhe resta". Batuíra, porém,
impediu que se tomasse qualquer medida, afirmando: "Deixai-o,
quem sabe precisa mais do que eu".
Batuíra
casou-se em primeiras núpcias com Da. Brandina Maria
de Jesus, de quem teve um filho, Joaquim Gonçalves Batuíra,
que veio a desencarnar depois de homem feito e casado. Em segundas
núpcias, casou-se com Da. Maria das Dores Coutinho e
Silva; desse casamento teve um filho, que desencarnou repentinamente
com doze anos de idade. Posteriormente adotou uma criança
retardada mental e paralítica, a qual conviveu em sua
companhia desde 1888.
Figura
bastante popular em S. Paulo, Batuíra tornou-se querido
de todos, tendo vários órgãos da imprensa
leiga registrado a sua desencarnação e apologiado
a sua figura exponencial de homem caridoso e dedicado aos sofredores.