A vida e a
obra de Allan Kardec
Hippolyte
Léon Denizard Rivail, ou simplesmente Allan Kardec, foi o codificador
da Doutrina Espírita. Antes de conhecermos melhor a vida deste
professor francês, mostraremos como foi seu primeiro contato
com o mundo espiritual, que consequentemente serviu de marco
inicial para o Espiritismo.
Kardec e os Espíritos
Em 1855, Hippolyte
Léon Denizard Rivail, professor francês de aritmética, pesquisador
de astronomia e magnetismo, foi convidado por um amigo seu a
ver de perto estas manifestações que ocorriam nos salões da
capital francesa. Rivail era discípulo de Pestalozzi, chamado
de pai da pedagogia moderna, e casado com Amélie Gabrielle Boudet.
Nascido em 03 de outubro de 1804, na cidade de Lyon, já ouvira
sobre o assunto das mesas girantes e não entendia bem o que
estava acontecendo. Homem criterioso, Rivail não se deixava
levar por modismos e como estudioso do magnetismo humano acreditava
que todos os acontecidos poderiam estar ligados à ação das próprias
pessoas envolvidas, e não de uma possível intervenção espiritual.
O professor então participou de algumas sessões, e algo começou
a intrigá-lo. Percebeu que muitas das respostas emitidas através
daqueles objetos inanimados fugiam do conhecimento cultural
e social dos que faziam parte do "espetáculo". Como
os móveis, por si só, não poderiam mover-se, fatalmente havia
algum tipo de inteligência invisível atuando sobre os mesmos,
e respondendo aos questionamentos dos presentes.
Rivail presenciava a afirmação daqueles que se manifestavam,
dizendo-se almas dos homens que viveram sobre a Terra. Foi então,
que uma das mensagens foi dirigida ao professor. Um ser invisível
disse-lhe ser um Espírito chamado Verdade e que ele, Rivail,
tinha uma missão a desenvolver, que seria a codificação de uma
nova doutrina .
Atento aos dizeres do Espírito, e depois de muitos questionamentos
à entidade, pois não era homem de impressionar-se com elogios,
resolveu aceitar a tarefa que lhe fora incumbida.
O Espírito de Verdade disse-lhe ser de uma falange de Espíritos
superiores que vinha até aos homens cumprir a promessa de Jesus,
no Evangelho de João, capítulo XIV; versículos 15 a 26: "E
eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que
fique convosco para sempre; o Espírito de Verdade, que o mundo
não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis,
porque habita convosco e estará em vós... Mas, aquele Consolador,
o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará
todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho
dito".
Através dos Espíritos, Rivail descobriu que em uma de suas encarnações
anteriores foi um sacerdote druida, de nome Allan Kardec.
Foi então que resolveu adotar este pseudônimo durante a codificação
da nova doutrina, que viria a se chamar Doutrina Espírita ou
Espiritismo. Kardec assim procedeu para que as pessoas, ao tomarem
conhecimento dos novos ensinamentos espirituais, não os aceitassem
por ser ele, um conhecido educador, quem estivesse divulgando.
Mas sim, que todos os que tivessem contato com a boa nova a
aceitassem pelo seu teor racional e sua metodologia objetiva,
independente de quem a divulgasse ou a apoiasse.
A Codificação
A partir daí
foram 14 anos de organização da Doutrina Espírita. No início,
para receber dos Espíritos as respostas sobre os objetivos de
suas comunicações e os novos ensinamentos, Kardec utilizou um
novo mecanismo, a chamada cesta-pião: um tipo de cesta que tinha
em seu centro um lápis. Nas bordas das cestas, os médiuns, pessoas
com capacidade de receber mais ostensivamente a influência dos
Espíritos, colocavam suas mãos, e através de movimentos involuntários,
as frases-respostas iam se formando. Julie e Caroline Baudin,
duas adolescentes de 14 e 16 anos respectivamente, foram as
médiuns mais utilizadas por Kardec no início.
Com o decorrer do tempo, a cesta-pião foi dando lugar à utilização
das próprias mãos dos médiuns, fenômeno que ficou conhecido
como psicografia.
Todas as perguntas e respostas feitas por Kardec aos Espíritos
eram revisadas e analisadas várias vezes, dentro do bom senso
necessário para tal. As mesmas perguntas respondidas pelos Espíritos
através das médiuns eram submetidas a outros médiuns, em várias
partes da Europa e América. Assim, o codificador viajou por
cerca de 20 cidades. Isso para que as colocações dos Espíritos
tivessem a credibilidade necessária, pois estes médiuns não
mantinham contato entre eles, somente com Kardec.
Este controle rígido de tudo o que vinha de informações do mundo
espiritual ficou conhecido por "Controle Universal dos
Espíritos". Disto, estabeleceu-se dentro da Doutrina Espírita
que qualquer informação vinda do plano espiritual só terá validade
para o Espiritismo se for constatada em vários lugares, através
de diversos médiuns, que não mantenham contato entre si. Fora
isso, toda comunicação espiritual será uma opinião particular
do Espírito comunicante.
Com todo um esquema coerentemente montado, Allan Kardec preparou
o lançamento das cinco Obras Básicas da Doutrina Espírita, a
Codificação, tendo início em 1857 com o lançamento de "O
Livro dos Espíritos". Estes livros contêm toda a teoria
e prática da doutrina, os princípios básicos e as orientações
dos Espíritos sobre o mundo espiritual e sua constante influenciação
sobre o mundo material.
Durante a codificação, Kardec lançou um periódico mensal chamado
"Revista Espírita", em 1858. Nele, comentava notícias,
fenômenos mediúnicos e informava aos adeptos da nova doutrina
o crescimento da mesma e sua divulgação. Servia várias vezes
como fórum de debates doutrinários, entre partidários e contrários
ao Espiritismo. A Revista Espírita foi a semente da imprensa
doutrinária.
No mesmo ano, Kardec viria a fundar a Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas. Constituída legalmente, a entidade passou
a ser a sociedade central do Espiritismo, local de estudos e
incentivadora da formação de novos grupos.
Allan Kardec
desencarnou em 31 de março de 1869, aos 65 anos, vítima de um
aneurisma. Sua persistência e estudo constantes foram essenciais
para a elaboração do movimento espírita e organização dos ensinos
do Espírito de Verdade.